Thursday, 15 December 2016

Quando era miúda, sentia-me um bocado culpada porque tinha mais pena do sofrimento animal que humano. Partia-me o coração ver um "bicho" sofrer. Quando cresci ganhei uma terrível empatia pelo ser humano e decresceu a pena pelo sofrimento animal. Senti-me culpada. Essa nuvem faz-me vomitar constantemente. Aos 16 anos decidi fazer alguma coisa e o que me apareceu foi uma revista que falava de missões. África principalmente. Pensei: é isto! Tenho de fazer isto. Escrevi-me com um padre missionário que me respondeu algo do género (se a memória não me atraiçoa) fico feliz por te preocupares, pode doer mas é importante só que devias te preocupar contigo em primeiro, se estiveres bem e feliz já fizeste o que gostarias de fazer em missão. Depois se vires que tal, que é isso, vem
Na altura delirei. Pensei: estranho! Deviam puxar mais o pessoal para ajudar e tal. São sempre necessárias pessoas. E note-se, sempre fui uma eterna apaixonada pelo mundo (apesar de parecer semi lunática), extremamente mundana e quase boémia. Iria me custar muito. Meses mais tarde, guardei a carta e nunca mais a li. Está na gaveta das cartas que já não leio há mais de vinte anos e como sou uma preguiçosa não me dei ao trabalho de a procurar. Contudo, a sensação de alívio ficou-me. E curti esse padre. Nunca o conheci. Sou agnóstica mas já li coisas em revistas religiosas do camandro. Um homem que chamava nomes (blasfémia para os mais antigos) a deus ou a Deus ou aos deuses e a resposta era positiva, extremamente cómica. E já li de ateus coisas mais papistas, julgamentos e críticas do mais recesso possível. Quase que achava estar a ler algo vindo de uma idade da inquisição. Tanto era o ressabiamento. Por incrível que pareça pareciam acreditar muito mais em Deus que o papa tal era a dor. Tentei compreender e depois vieram as ondas. O Design. A cruz invertida. Algo desenhável. Vi como arte. Não o deixa de ser. Não deixo de ser agnóstica. Vejo a fé como esperança. E sem esperança vem a depressão. Quando a vida não está fácil é brutal a esperança. Mesmo que seja só por minutos. São minutos em que se respira, se é criança, se sonha. E como dizia a música: " o mundo pula e avança". 

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